Menina Espivetada — Casa de 1917
A Caloi era bem melhor. Eu sonhava ganhar uma: tinha o guidão mais alto, podia pedalar numa postura mais erguida e não tinha aquele cano reto no quadro, algo que me incomodava na bicicleta Monark do meu irmão. Mesmo com os desconfortos de ser um modelo masculino, desafiei o vizinho para uma corrida.
Marcamos a largada na esquina da Rua General Carneiro com a Benjamin Constant. A pista era a calçada, e a chegada, no final da quadra. Saí como um foguete, alinhada com o guri, que era muito veloz, os pedais girando feito loucos. Ao se aproximar o final da quadra, estávamos emparelhados, quando apertei o freio. Não respondeu.
No desespero, virei o guidão bruscamente para a direita, tentando entrar na garagem do meu prédio. Mas não foi possível concluir a curva naquela velocidade e bati de frente no muro baixo que separava o pátio do nosso condomínio com o terreno dos Venske — onde está a casa erguida em 1917.
O quintal deles ficava muito abaixo da rua, o que resultou em uma queda livre de três metros.
Quando recobrei os sentidos, estava com a familia Venske em volta; da Fábrica de Bandeiras e Fitas Venske, que ficava ali na Praça do Expedicionário. Logo depois chegou o Dr Gustavo Keil, que morava no meu prédio. Como consequência, felizmente só uma fratura no braço.
No final, eu estava certa: “Bom mesmo era se fosse uma Caloi”.