CAIOBÁ - OS PRIMÓRDIOó


O ano era 1940. Viajar para o litoral não era decisão de última hora.

Luis Guilherme Nickel Neto, a esposa Bertha e os 3 filhos enfrentaram o percurso, que levava cerca de cinco horas de carro até Caiobá. .A descida era pela Estrada da Graciosa, com trechos de paralelepípedos e macadame. 

Muita poeira e dificuldades. Ao final da serra, passando por Morretes e entrando nas retas, havia sempre cachos de banana à venda. Comprava-se um cacho verde, que amadurecia rápido nos dias seguintes.

Uns cinco quilômetros antes de Paranaguá, pegava-se uma estradinha à direita rumo a Praia de Leste. 

Vinte e cinco quilômetros de areia fofa e terra. A pá era item obrigatório no porta-malas. 

Em Praia de Leste, a estrada acabava. Para chegar a Matinhos e Caiobá, só pela areia da praia — e era preciso conhecer as marés.

O ideal era passar logo após a maré alta, com a areia úmida e firme. 

Se a maré subisse, a praia desaparecia, e o carro ficava preso na restinga até o dia seguinte. Quando encalhava, todos empurravam: homens, mulheres, crianças. 

Colocavam gravetos sob as rodas, que afundavam mais a cada aceleração. Caboclos experientes apareciam para ajudar, erguendo a traseira do carro em troca de uns trocados.

Havia ainda os riozinhos que cortavam a areia e desaguavam no mar. 

O mais traiçoeiro, o Rio Perequê (ou Pequerê), tinha um carro de boi estacionado para puxar veículos encalhados com cordas amarradas aos para-choques.

Em Caiobá, reinava a calmaria. 

Em julho, o vento sul pedia agasalhos. No início, só se ia no inverno por causa da malária — a "maleita". 

O Lico, pegou a doença uma vez. Com remédios como a Atebrina, telas nas janelas e o hábito de fechar a casa ao entardecer, as famílias passaram a arriscar meses mais quentes.

A luz elétrica vinha de um motor a diesel, das 19h às 21h. 

Depois, só velas ou lampiões a querosene. 

A energia era só para lâmpadas; quase nada elétrico existia por lá.

Dona Bertha Nickel, mãe do Lico (o loirinho da foto), levava uma gaiola com galinhas no carro. Garantia ovos, bolos e, às vezes, um frango para o almoço.

Na Caiobá dos anos 1940, com suas vinte casas de famílias conhecidas, uma charrete levava os primos pela praia. Primos que depois viraram cunhados, quando o mais novinho casou com a irmã mais nova dos primos. Isso era até comum entre as famílias antigamente. 


Foto: Casa de Luis Guilherme Nickel Neto - a primeira residência de alvenaria de Caiobá