COLÉGIO DIVINA PROVIDÊNCIA— RUA DO ROSÁRIO

Dois momentos marcantes:

Na janela do pavimento térreo, de frente para a Rua do Rosário, ficava a sala da primeira série do Colégio da Divina Providência. 

Lembro que houve um concurso de desenho e a vergonha que senti quando a freira entrou na sala e chamou meu nome para receber o primeiro prêmio.

O resultado se deu porque desenhei uma menina segurando um guarda-chuva — os pingos que caíam das nuvens não molhavam a área coberta.

O presente foi um livro que se abria 360 graus quando as costas das duas capas se uniam. Florescia um circo mágico com cenários distintos 3D, compostos de palhaços, malabaristas, trapezistas, domadores de leões, bailarina com sombrinha em cima do elefante. 

Outro momento marcante ocorreu dois anos depois. 

Já estava na terceira série e formávamos a fila com um braço sobre o ombro da colega da frente quando a diretora chegou. Falou que nossa professora não iria mais dar aula no colégio; viria outra no lugar. Soubemos depois que, enquanto ela viajava para a cidade dos pais acompanhada do noivo, infelizmente uma vaca surgiu no meio da estrada e não tiveram como evitar o acidente. Ambos morreram. “Não lembro de ter chorado. Simplesmente nunca esqueci.” 

E o receio da ruptura no ciclo natural da vida foi criado: se tornou real. Dentro de mim  instalou-se um  temor excessivo, que se fortaleceu com outros episódios tristes - ao constatar que pessoas jovens e saudáveis podiam morrer, que a morte não acontecia apenas com os velhinhos.

E o encantamento da infância se perdeu entre os pingos da chuva, que agora molhavam até sob o guarda-chuva.


O Colégio da Divina Providência era tradicional de freiras e exclusivo para meninas. A Rua do Rosário já existia quando a cidade contava com apenas 20 ruas - e é a única entre essas que permanece com o mesmo nome até hoje.