CURITIBA ANTIGA NOS TRINQUES: CASARÕÒES DA RUA XV QUE PERMANECEM
Cada qual a seu modo, algumas fachadas históricas de casarões da Rua XV de Novembro perseveram, atestando um passado cada vez mais remoto. Sobre elas tenho me debruçado, a fim de resgatar vivências e um pouco do cotidiano das pessoas que ali viveram.
José Derviche era proprietário do Palácio das Sedas, elegante loja de fazendas na Rua XV de Novembro, em frente ao Louvre (atual Lojas Marisa). Nas memórias da filha - Maria José Derviche (ou Zezé Cidral, como todos a conhecem) - sobrevivem cenas vívidas:
"Antes de nossos passeios, papai inspecionava o carro, removendo qualquer vestígio de pó (como se alguma vez não estivesse impecável), e verificando se as faixas brancas dos pneus estavam 'nos trinques”.
"Papai teve um Galaxie amarelo e anualmente viajava a São Paulo para adquirir os novos lançamentos da Ford: desde o clássico Galaxie 500 até os sofisticados LTD e Landau – foram cinco modelos distintos ao longo dos anos".
"Recordo-me especialmente de papai dirigindo o Galaxie amarelo em nossos passeios pela Rua XV: parávamos na Sorveteria Damasco - a seguir - na Kopenhagen, para comprar uma barra de chocolate meio-amargo familiar”.
"Na volta, já na Praça Tiradentes a caminho da Universidade, papai estacionava na esquina com a Travessa Tobias de Macedo e comprava as pipocas Flor da Noite - as mais deliciosas da cidade”.
Lugares que desapareceram, carros que viraram história, sabores que ainda habitam o paladar, imóveis parcialmente modificados. Só a família, mesmo na memória, permanece igual, nos lembrando sempre quem somos e de onde viemos.
O imóvel do Palácio das Sedas permanece na Rua XV de Novembro. No início do século passado, o local abrigava o Cine Mignon, quando ainda se exibiam filmes mudos. Anos depois, ganhou um novo pavimento.
O prédio não está "nos trinques" como as rodas impecáveis do Galaxie amarelo, mas conserva parte das características arquitetônicas originais.
Lugares desapareceram, carros viraram história, sabores ainda habitam o paladar, imóveis foram parcialmente modificados (ou demolidos). Só a família, mesmo na memória, permanece igual — sempre nos lembrando quem somos e de onde viemos.