EDIFÍCIO LEBLON — PRÉDIO MODERNISTA DÉCADA 1950
O prédio foi construído pelo meu avô Dante Romanó; somando os dois blocos, possuía 16 apartamentos. Como ele tinha 7 filhos, deu um apartamento para cada um e cinco deles vieram morar aqui. As outras unidades foram alugadas ou vendidas.
Os espaços eram bem grandes: um apartamento por andar, no prédio mais alto, e com um banheiro cada. O condomínio teve moradores muito ilustres e vou contar alguns que lembro:
1. O casal de médicos Fani Frishmann e Oscar Aisengart morou aqui. Além de possuírem um telefone, quando só os muitos ricos tinham o aparelho em casa, criavam sapos em uma gaiola no térreo. Naquela época, o protocolo internacional para confirmar uma gravidez — no mundo inteiro — era injetar nos sapos a urina de mulheres supostamente grávidas. Se o sapo inchasse, resultado positivo. Mais tarde, com o avanço da ciência, os exames modernos substituíram esse método.
2. Morou também um cônsul da França. O filho do casal se chamava Jean Pierre e brincávamos juntos lá embaixo. A gente chamava ele de “Viniqüi”, porque seus pais só falavam em francês com os filhos e repetiam seguidamente essa palavra: era Viniqüi pra cá, Viniqüi pra lá... Ficou Viniqüi, o nome do guri, e pronto!
3. O sr. Trevisan, dono dos Calçados Cinderela e síndico do prédio, morava no 3º andar. A criançada tinha medo de fazer barulho por causa dele. Sua loja ficava em frente à Biblioteca Pública.
4. A Tide era mãe do Franço, da Puppi e da Tereza, que depois se casou com Emerson Fittipaldi e virou Tereza Fittipaldi.
5. Tinha a Dona Ambrosina, mãe do João e da Maria. A Maria, bonita e desenvolta, era um pouco mais velha do que eu e ia no programa do canal 6; morri de inveja quando ela ganhou a boneca “Amiguinha” do programa. Minha prima Maria Lucia, do primeiro andar, também era a “tal": ia no programa “Arlete na Desenholândia”, do mesmo canal 6, na José Loureiro; ganhou o cargo de “secretária” do programa, que contava com o sr. Chen, diretor, e a Susi, uma moça linda que cantava e dublava em inglês.
6. No 3º andar morava o João Manoel, formado na primeira turma de Psicologia da PUC. Era casado e tinha dois filhos: a Tânia e o João Manoel Filho, único a sobreviver depois de um acidente que aconteceu quando voltavam de Arapongas. Aquelas coisas que, passados mais de 50 anos, a gente ainda fica tentando entender.
7. A família Belo morava no quarto andar do outro bloco. O filho mais velho era o Wilber e tinha o Carlinhos. O pai deles tinha um fusca e o pisca-pisca era uma vareta que saía da parte superior da porta, na direção da fechadura. O famoso “pisca-vareta”, uma haste metálica fina que ficava do lado interno do carro; para sinalizar uma curva, o motorista erguia a vareta manualmente. Nos anos 60, era muito comum ver motoristas sinalizando com o braço pela janela.
8. O casal que morava no 8º andar, muito rico, tinha empresa de ônibus — a família ainda tem, e é mais rica ainda. Demoraram para ter filhos; quando ganharam, fizeram uma festa linda na casa nova e o convite tinha versinho impresso com rima e a foto do menino.
9. Tinha uma moradora que era neta do dono do Móveis Cimo, Martim Zipperer. Chamava-se Maria Lina e, antes de casar, morava com sua tia Elsa no prédio. O avô de Maria e tia Elsa compraram dois apartamentos do meu avô, com a condição que fosse instalado elevador no bloco de quatro andares. Não era a intenção inicial, mas meu avô atendeu o pedido. Hoje, o elevador — um Otis com botoeira e porta pantográfica dourada, acho que de latão — é uma relíquia. Ainda funciona perfeitamente.
10. A Tia Bena (Bernadete) morava no 1º andar. Era professora de piano na Belas Artes e dava aulas em casa preparando as crianças para prestar o vestibular e ingressar na escola. Lembro que ficava escutando as aulas lá embaixo, pois o apartamento dela ficava logo acima. As crianças tocavam sempre a “Sonatina” de Clementi: começavam bem, até um ponto, aí erravam e reiniciavam. Eu já sabia exatamente onde iam errar. Não dava outra.
11. O sr. Wille, casado com a dona Sueli Piehoviak, morava no 5º andar e tinha uma Belina azul-claro. Eles eram donos do Palácio das Espumas e o filho deles tinha um bar na esquina, com aquele baleiro que girava. E caixas cheias de chicletes Ping-Pong e Ploc. Sua mãe era muito trabalhadeira: além de recobrir com tecidos as encomendas do Palácio das Espumas, fazia todo santo dia uma bandeja de sonhos de goiabada e de nata para o Raul vender na mercearia. E também cuque de uva ou só de farofa. Eram bem sequinhos, maravilhosos. Ficavam prontos depois do almoço, quando dona Sueli os levava cobertos com panos de prato branquinhos para o bar do filho. No prédio, espalhava-se aquele cheiro delicioso.
12. Dona Amália morava no 2º andar e era avó da Soni. Muito querida. Lembro que na área de serviço dela tinha guardado um balde com furos. Me explicaram que era um chuveiro. Nunca esqueci daquele curioso objeto e nunca passou a vontade de tomar um banho com aquele balde.
13. Tia Leonida era casada com o tio Dante. Sempre divertida, enfeitada e cheirosa. Morou em duas ocasiões no prédio.
14. Na mesma rua General Carneiro, esquina com a Comendador Macedo, tinha a casa Dona Rese e do marido, que era das famílias dos donos da Fábrica de Fitas e Bandeiras Venske. Os filhos se chamavam: Vânia, Áiton e Ílton. Certa vez, apostando corrida, bati no muro baixo pilotando uma bicicleta em alta velocidade. Com o impacto, caí de uma altura de três metros, com bicicleta e tudo. Eles correram me atender, chamaram o médico, dr. Gustavo Keil, que me levou no colo para minha mãe. Fratura no braço. Graças a Deus, foi só isso.
15. No 4º ou 5º andar, moravam Vera, Paula, Cláudia e Flávia, cuja tia, Marise Meyer Costa, impressionava a todos pela beleza e simpatia. Ela era Miss Paraná e tinha ficado em 3º lugar no Miss Brasil.
16. No 2º andar, morava a Yvelise, professora de francês da UFPR e a pessoa mais educada e meiga que conheci. Mais tarde, casou-se com o dr. Elimar, professor de Direito, e foram muito felizes.
Além disso, tinham o homem do saco, a carrocinha que pegava os cachorros de rua e provocava gritos e correrias, as carroças dos colonos que traziam frutas, verduras e ovos para vender e a gente escutava de longe suas rodas batendo nos paralelepípedos quando se aproximavam do prédio.
Havia também as cigarras, cuja cantoria era alta nas manhãs das primaveras, e os carteiros que chegavam com cartas escritas à mão.
Tinham os vendedores de gás, que apertavam a campainha para ver se os moradores estavam precisando de botijão novo.
Não eram só alegrias: a presença de muitos familiares juntos provocava discussões acaloradas. Mas, entre risos e confusões, a harmonia se restabelecia.
Às vezes, o andamento do Edifício Leblon era um “Adágio”; outras, um “Allegro Ma Non Molto”; e, em algumas ocasiões, até um “Prestíssimo”.
E assim a vida seguia sua contínua melodia.
Esse é o prédio em que nasci. Fica na Rua General Carneiro, 784 — Centro. Um exemplar modernista construído na década de 1950, tendo como características: linhas retas sustentadas com pilotis, sendo o espaço sob o edifício utilizado para garagem de carros e circulação; ausência de ornamentos nas fachadas; grandes vãos com janelão; estruturas das janelas com formas geométricas simples e, ao mesmo tempo, janelas grandes para usufruir de muita luz natural e vista ampla.