FANADOL — BAIRRO DO PORTÃO
Vô Frederico Scholl nasceu em Wilhelm, uma pequena cidade alemã, onde sua família mantinha um armazém. Nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, diante dos prejuízos, a familia decidiu vender seus bens e emigrar, seguindo o exemplo de outros compatriotas e motivados por cartazes na estação ferroviária da cidade. Desembarcaram no Porto de Santos, em 1913, e estabeleceram-se inicialmente em Porto Vitória, no Paraná, como agricultores.
Meu avô, porém, não se adaptou à vida no campo. Revoltado pelo enterro improvisado de sua mãe (que faleceu sem acesso a um cemitério), fugiu para Curitiba. Trabalhou numa conceituada oficina mecânica na Rua João Negrão, onde onde seu conhecimento e suas habilidades em mecânica e hidráulica chamaram a atenção do Sr. Raimundo de Castro Maia, dono da Carioca Industrial, com sede no Rio de Janeiro.
Atendendo o convite de Castro Maia, Frederico mudou-se para São Leopoldo (RS), onde conheceu minha avó Martha Renner. Anos depois, retornou a Curitiba para fundar a Fanadol, a primeira fábrica de óleos vegetais do Paraná, também com o aporte financeiro de Castro Maia.
A Família Scholl chegou em Curitiba em 1942 e residiu inicialmente em pensão na Praça Santos Andrade, onde hoje está o Edifício Marumby, enquanto a casa e a fábrica eram construídas no bairro do Portão. Minha avó Martha cuidava das filhas Magda e Márcia. As meninas brincavam de bonecas no pequeno jardim da pensão e a mãe costumava levá-las ao Passeio Público.
A pensão era considerada excelente, mas havia apenas um banheiro compartilhado por todos os quartos, como era comum na época. O penico de ferro esmaltado ficava debaixo da cama para as necessidades noturnas.
Minha mãe se mudou para o bairro do Portão, aos 5 ou 6 anos de idade, em 1943. Na época, a região era praticamente desabitada. Do lado de cá da Rua República Argentina só existiam a madeireira dos Bettega e a Fábrica de Óleos Vegetais Fanadol, fundada por meu avô Frederico Scholl.
Na rua principal do bairro - República Argentina - ficava o Armazém de Secos e Molhados do Sr. Miguel Abraão (no local onde hoje é o atual Terminal do Portão). Do outro lado da rua, ficava o Bar do Eduardo — onde meu avô fazia ligações telefônicas, até a instalação de uma linha na fábrica.
A região ainda abrigava a Sociedade Literária, ao lado da Igreja do Portão e as fábricas Códega e Aniagem, do outro lado da rua principal.
Meu avô Frederico havia construído a casa da família anexa à Fanadol. As lembranças de minha mãe são repletas de aventuras infantis: ela e a irmã, Marcia, brincavam livremente nos campos ao redor de onde hoje está o Supermercado Muffato, e também atrás da Fanadol, com as amigas, filhas dos trabalhadores da fábrica. Havia muitas árvores, e elas adoravam procurar ninhos de passarinhos.
A produção da Fanadol incluía o aclamado Óleo de Amendoim “A Favorita”, comparável em qualidade aos melhores azeites atuais, além de óleos de girassol e soja. A população, que até então cozinhava exclusivamente com banha, introduziu o óleo vegetal no preparo dos alimentos
A Fanadol prosperou, transportando óleos para todo o interior e Santa Catarina.
Meu avô, agora próspero, tornou-se sócio do Clube Concórdia e levava a família aos cinemas do centro. A vó adorava filmes com a Ava Gardner, Rita Hayworth e com Marlene Dietrich. Já meu avô preferia esperar no carro quando esposa e filhas escolhiam filmes românticos. Como sempre cochilava em películas “águas com açúcar”, preferia ficar dormindo no carro.
As atrizes de Hollywood inspiravam as mulheres da época, mas minha avó Martha seguia mesmo Marlene Dietrich — tanto que, nos anos 1940, quando as curitibanas só vestiam saias e vestidos, ela já usava slacks com naturalidade e ousadia. E vestia as filhas do mesmo jeito.
A volta do cinema para casa às vezes se tornava uma aventura inesperada: a Via Guaíra - que mais tarde se tornaria a Avenida Kennedy - ainda era um trecho de chão batido. Em dias de chuva, a rua transformava-se num atoleiro. Meu avô, sempre precavido, mantinha correntes no porta-malas e tamancos para o trecho difícil. Minha mãe recorda com nitidez as vezes em que voltavam do cinema e ele precisava parar para colocar as correntes nos pneus.Houve ocasiões em que as três mulheres da família precisaram calçar tamancos e empurrar o veículo, enquanto meu avô se dividia entre ajudar no esforço e manter o controle do volante.
Nessas ocasiões, chegaram em casa irreconhecíveis de tanta lama - mas nada que um bom banho quente não resolvesse. E ainda sobravam muitas risadas e histórias para contar.
Assim se fez a vida da família Scholl no Portão. Parecia perfeita — mas, no fim, como todas as histórias vividas, revelou-se simplesmente real.