FUGA: O AEROPORTO

Houve um tempo em que os pais levavam os filhos para passear no aeroporto aos domingos, para ver os aviões decolarem e aterrissarem.

Havia um espaço envidraçado no pavimento superior do Aeroporto Afonso Pena, aberto ao público.Eu adorava avistar as aeronaves surgindo no céu e acompanhar sua aproximação silenciosa. De repente, elas passavam rasantes, cortando o horizonte em linha reta, enquanto um rugido ensurdecedor de turbinas, reversos e freios.tomava conta do espaço. 

Do alto dos meus 64 anos, contemplo as trajetórias percorridas e os voos que me trouxeram até aqui. 

Percebo que, na maioria das vezes, minhas decisões foram tomadas impulsionada por reveses - não reversos - e atribulações, sem uma análise profunda das circunstâncias. assim quando escolhi minha graduação. Lembro-me claramente do dia da inscrição: liguei para minha mãe de um orelhão no Centro Politécnico, indecisa entre Nutrição e Medicina. "Escolha Nutrição", ela aconselhou, "porque Medicina tomaria toda a sua vida".

Foi assim quando escolhi minha graduação. No dia da inscrição, liguei para minha mãe de um orelhão no Centro Politécnico, em dúvida entre Nutrição e Medicina. “Melhor Nutrição”, ela aconselhou, “Medicina tomaria toda sua vida".

Era o primeiro ano do curso de Nutrição na Federal e no Paraná. Eu não fazia ideia do que se tratava-  alguns parentes  achavam que  aprenderia a cozinhar e eu mesma tinha essa dúvida. 

Foi assim também quando decidi ir para a Alemanha aos 21 anos. Por quê? Para quê? Naquela época, viajar para o exterior era algo extraordinário. 

Hoje jovens fazem intercâmbio para estudar idiomas e conhecer culturas.

Há 40 anos, não era assim. Quando vendi meu carro e meu piano para  embarcar  rumo à Alemanha, não foi uma escolha ponderada nem um sonho realizado. Foi uma fuga. 

O aeroporto tornou-se minha saída para  escapar da realidade que vivia. 

Era 23/12/82. A passagem mais barata incluía escala no Paraguai -  com filas intermináveis 

sem saber se as malas chegariam ao mesmo tempo que nós no destino. Ao desembarcar em Frankfurt às 17h do dia 24/12/82, já era noite. Escuridão e ruas desertas.

Não existia internet, minhas únicas referências eram anotações rabiscadas num caderno. Sabia apenas a direção do metrô que deveria tomar e o ponto onde descer. 


Cheguei ao endereço da Associação Cristã Feminina: uma casa antiga de dois andares, com porão e sótão, onde vivia uma senhora solitária que hospedava estudantes. 

Naquela véspera de Natal, o local estava vazio - as moças haviam partido para celebrar com suas famílias. A anfitriã mostrou-me meu  quarto e o banheiro no corredor.

Ao descer à cozinha, deparei-me com ela montando uma árvore de Natal majestosa, um pinheiro plantado em um latão que quase tocava o teto

Ao descer à cozinha, deparei-me com ela montando uma árvore de Natal majestosa, um pinheiro plantado em latão que quase tocava o teto. Estranhei as maçãs penduradas nos galhos e o fato de estar enfeitando a árvore justo na noite natalina. Observei em silêncio enquanto ela acendia meticulosamente as velinhas nas lamparinas - meu alemão rudimentar travava minha voz.

Subi as escadas. Na janela embaçada do quarto, limpei o vapor com a mão e encarei a noite escura. A saudade apertou: meu pai falecera cinco meses antes, e no funeral eu não conseguira chorar. Agora, diante da mala intocada, a realidade pesava - muitos meses me separavam de casa. Encolhi-me na cama e deixei as lágrimas fluírem.

Naquela noite, chorei o luto reprimido, as dores da adolescência, a escuridão que carregava dentro de mim. As lágrimas transformaram minha dor de cabeça em exaustão, e afinal adormeci.

Mas não foi o fim. Durante quase um ano, as lágrimas voltaram diariamente, apesar das paisagens deslumbrantes e pessoas extraordinárias que conheci. 

Aprendi então a lição mais dura: problemas emocionais são bagagem que nenhuma viagem pode deixar para trás. Feridas precisam ser curadas antes da mudança - não o contrário. Nenhum lugar, por mais belo, alivia dores da alma.

O Aeroporto Afonso Pena, minha porta de fuga naquela véspera de Natal, testemunhou meu retorno exatos doze meses depois. Ao cruzar suas portas novamente, entendi que eu nunca verdadeiramente deixara minha terra - apenas carregara meu lar dentro de mim — com todas suas dores e memórias — para o outro lado do mundo."