LEMBRANÇAS — RUA JOÃO NEGRÃO

Certa vez, fui com meu pai ao Açúcar Diana. Lembro do cheiro e do gosto agradáveis, pois as sensações se misturavam ali. O ar estava impregnado com o aroma de garapa e os cristais de açúcar flutuavam. Tenho viva a lembrança de caminhar pela fábrica e sentir a neve doce caindo sobre mim! Saí toda coberta de açúcar e melecada!

Quem passa na esquina das ruas Visconde de Guarapuava com a João Negrão desconhece que ali, onde hoje é a Previdência Social, funcionou até o início dos anos 1960 o Açúcar Diana.

Antigamente, os engenhos utilizavam a força de animais para moer a cana.

No local, já se utilizava um locomóvel para extrair o caldo, as polias do locomóvel eram de madeira e as correias de couro. 

Mas o que era esse tal de locomóvel? 

Assemelhava-se a uma locomotiva: a lenha aquecia a água em um recipiente totalmente fechado, chamado caldeira — semelhante a uma panela de pressão.

Quando a água fervia, a pressão acumulada era liberada como vapor controlado. Esse vapor movia um pistão que acionava o mecanismo de extração do caldo, princípio básico das máquinas a vapor.

O caldo extraído era fervido e decantado para remover impurezas. Depois, novo aquecimento evaporava o líquido até cristalizar. Os cristais eram secos e refinados para virar açúcar. Além do açúcar, produziam café e sal com o mesmo nome.

Na ocasião, o pai contou que Diana era o nome da filha do proprietário, Emílio Romani. 

Desde então passei a observar a embalagem do Acúcar Diana, que era em papel branco com uma dobra em cima, e onde tinha estampada a imagem de uma índia segurando um arco e uma flecha. — e ficava a imaginar se aquela moça desenhada era filha do dono. 

Quem passava a pé ao lado da fábrica pela Rua João Negrão, precisava atravessar uma grande grelha de ferro que ocupava quase toda a calçada.

E sob a grade, podia ver a água e ouvir o som do rio Ivo. Um antigo canal deste passava por baixo misturando sons, aromas e olfatos. 

Sob a grade de ferro, dava para ver a água escura do rio Ivo e ouvir seu barulho. O antigo canal passava por baixo, misturando o cheiro doce do açúcar da fábrica com o odor forte do rio. O tempo levou a fábrica, e até o rio não se vê mais.Ficaram as lembranças de cheiros, tempos e ecos de uma Curitiba esquecida.