MEMÓRIAS DO ÔNIBUS AZUL — COLÉGIO CAJURÚ

Ao passar de carro pela Sete de Setembro, em frente ao Shopping Estação, minha mãe apontaou para o antigo casarão do Hotel Roma na Praça Eufrásio Correia e recordou:

— Aqui, o ônibus azul do Colégio Cajuru deixava uma aluna. O pai dela era o Sr. Omairi,   dono da mercearia e frutaria que ficava nesta esquina.

E assim, entre um semáforo e outro, iniciou-se uma viagem no tempo - uma Curitiba do final dos anos 1940, onde o ônibus escolar percorria ruas ainda sem edifícios altos, transportando meninas e moças para suas casas de muros baixos e jardins espaçosos.

O Colégio Cajuru mantinha um internato para alunas do interior e semi-internato para as alunas curitibanas, sob a direção de  Mère Julia.

Lembra que os cadernos não podiam ter “orelhas de burro”. No refeitório,  as refeições eram feitas em silêncio - uma irmã vigiava de um banco alto. Se alguém arrastasse a cadeira, tinha que se sentar e se levantar de novo.

As professoras eram freiras e as alunas eram muito bem-educadas por elas.  Minha  mãe recorda quando houve um teatro na escola e foi apresentado “Chapeuzinho Vermelho”, no auditório, para pais e alunas. Ela foi o Lobo Mau. As meninas treinaram exaustivamente...Foi um acontecimento memorável!

Aprendiam francês e latim entre as matérias. A mãe era luterana, mas adaptou-se muito bem  participando inclusive das missas. Após o almoço, as alunas se divertiam nas quadras de vôlei, conversavam  ou caminhavam sob a sombra dos cedros que ladeavam o passeio.

Às 13h30, as alunas retornavam às salas de aula e, em seguida, dirigiam-se novamente ao refeitório para o café da tarde.

Ao final, iam para o pátio, onde ficavam os ônibus que as levariam para casa.

Havia o ônibus vermelho e o verde, que percorriam rotas diferentes.

O ônibus azul, dirigido pelo Seu Basílio, fazia a rota da minha mãe. A responsável por vistoriar o transporte das jovens por uma Curitiba de casarões era a Irmã Belina. A mãe lembra que o ônibus parava para deixar as colegas nas seguintes casas  mas recorda que havia outras colegas cujos endereços apagou da memória:

Regina Correia, Visconde de Guarapuava com Marechal Floriano Peixoto;

Maria Carmen Iglesias — casa grande atrás do Shopping Curitiba (hoje, estacionamento);

Marlina Boesel (rua Visconde de Guarapuava, perto da Igreja Santa Teresinha — casa térrea com grande jardim na frente); 

Rosa Maria Beltrão (esquina da Visconde com Bento Viana); 

Irmãs Lupion (Castelinho do Batel, com entrada pelos fundos); 

Resi Matte (descia na Avenida Iguaçu e lia livros no trajeto); 

Magda e Márcia Scholl — minha mãe e sua irmã Marcia — desciam na capelinha da Rua República Argentina, em frente onde  hoje é o Supermercado. De lá, pegavam o bonde até a Igreja do Portão. Era muito longe para o ônibus escolar levar até em casa; 

O ônibus seguia e deixava Marismenia Schwanzee (casa na esquina da Água Verde com Bento Viana); 

Ana Maria Mauad Sfair (Rua Chile com Westphalen); 

Maria José Derviche era a última a descer, na rua Silva Jardim.

Ao descerem no ponto final, as irmãs vinham andando até a Fanadol pelas ruas de terra, que se transformava em barro nos dias chuvosos. O ritual diário ao chegar em casa era raspar a sola na faca afiada de ferro cimentado no chão. E a mãe delas logo os engraxava para o dia seguinte. 

Quase todas aquelas lindas casas viraram edifícios. O bonde foi extinto. O Colégio Cajuru já não existe. Muitas pessoas já partiram — e a mãe tem 87 anos. Mas nas fotos amareladas sobrevivem as memórias e ainda ecoam o ronco do ônibus azul e o riso solto, despreocupado e alegre das amigas de infância e anos felizes.