O TESOURO MORA AO LADO — RUA DR. MURICY

O prédio rosa com cúpula da foto foi construído em 1925 para sediar o Tesouro do Estado. Mas vou falar  do casarão ao lado, uma residência antiga com frisos elegantes e janelas brancas. 

Há 35 anos,  havia ali um bar chamado Habeas Coppus. 

Era uma quarta-feira, início de maio. Eu estava exausta. Tinha trabalhado o dia inteiro. Quando minha prima ligou chamando para sair, achei que era um trote. Não era. Ela insistiu bastante e eu já estava  debaixo das cobertas, com minha filha de três anos dormindo no quarto ao lado. Daria tudo para não precisar sair naquela noite. Mas ela não desistiu. Sabia que eu tinha uma babá que dormia em casa e que minha filha estaria bem cuidada. Minhas desculpas se esgotaram e, no fim, tive que ceder. Afinal, era ela quem segurava minhas pontas e enxugava minhas lágrimas. Me arrastei da cama, vesti uma calça de veludo cotelê vermelha, calcei minhas botas pretas e fui,   rezando para que a noite terminasse logo.

Chegando ao bar, dois rapazes bem-apanhados nos ofereceram lugar. Eram simpáticos e educados. Eu, porém, não estava a fim de muita conversa. Andava desiludida, sem acreditar que um dia encontraria alguém com quem desse certo. E, sinceramente, nem estava disposta a gastar energia com isso. 

Minha prima estava confortável e vi  que podia ir embora.

O rapaz com quem eu conversava se mostrou gentil e, ao perceber meu cansaço, ofereceu-se para me levar. Contei que precisava acordar cedo no dia seguinte e que era mãe de uma menina de três anos. Ele não fez cara de espanto, não questionou, e continuou a agir com a mesma naturalidade. Naquele instante, comecei a vê-lo de uma forma diferente. Me pareceu tão diferente dos rapazes com quem tinha me deparado até então. Nos despedimos. Durante a conversa, comentei distraidamente que meu aniversário havia sido três dias antes e que não havia comemorado.

Na manhã seguinte, fui acordada pelo interfone. Desci e tive uma surpresa: um buquê de flores, acompanhado de um cartão parabenizando meus 28 anos.

Estamos juntos há 35 anos. Um marido atencioso, dedicado, que nunca me impediu de ser quem eu sou. Encontrei não só um amor de verdade, mas o melhor pai que minha filha poderia ter. Temos nossas diferenças, afinal, não sou tão fácil de conviver. Mas, se a Casa do Tesouro era a rosa, o meu tesouro estava na casa ao lado.