PROJETORES A CARVÃO — CINE MIGNON
Adolpho Romanó era o irmão mais velho do meu avô. Desde jovem, demonstrava espírito empreendedor. Abriu um comércio e, entre os produtos que vendia - a maioria importados - estavam os bastões de carvão, essenciais para a projeção dos filmes nas salas de cinema da época.
Os projetores a carvão funcionavam com um sistema interessante: dois bastões, um positivo e outro negativo, eram posicionados a 5 mm de distância um do outro, criando um arco voltaico que gerava luz através de uma fagulha constante. Cada bastão durava apenas 20 minutos, e se o operador não os trocasse a tempo, a tela apagava no meio da sessão!
Como soltavam fumaça ao queimar, os cinemas precisavam ter chaminés, claraboias ou sistemas de exaustão no teto - muitas vezes disfarçados como decoração.
A luz intensa, gerada pelos carvões, refletia-se em um espelho atrás da película, incidindo sobre ela, que era desenrolada manualmente por uma manivela em velocidade constante. A seguir, o filme era enrolado em outro rolo para reutilização.
Naquela época os filmes ainda eram mudos, e pianistas improvisavam trilhas sonoras ao vivo. Foi assim que Adolpho Romanó (violinista), seu irmão Dante Romanó (pianista) e a irmã Ausônia Romanó (também pianista) complementavam a renda tocando nas sessões.
A Importadora e Papelaria Adolpho Romanó, localizada no Largo da Ordem, vendia de tudo: desde os bastões de carvão (posteriormente substituídos por lâmpadas de xenon) até bonecas com olhos de vidro, louças francesas e faziam a venda exclusiva dos formulários da Receita Federal para declaração de imposto de renda - que mudavam a cada ano.
Maria Thereza Romanó lembra a boneca que ganhou de aniversario do tio Adolpho.
O tempo levou a loja, os bastões de carvão, as sessões de cinema, mas deixou vestígios.
E como um filme mudo projetado na parede do passado, Thereza se vê com a boneca de olhos de vidro - aqueles que não piscavam - para que nunca se esquecessem uma da outra.