RECUERDOS DE CURITIBA — ENCHENTES DO RIO IVO

Por Vera Daros (filha)


Minha mãe era vizinha de porta do meu pai, ali na rua D. Pedro II.

Um dia, ela se preparava para sair. Ao abrir a porta, olhou para ele de modo diferente, quando o viu assobiando “Recuerdos de Ypacarai” e, de tal forma se distraiu que  eles se esbarraram na escadaria. Nesse momento, ela pensou: “Vou me casar com esse rapaz!”.

Assim, Lysete Leminski Daros se casou com Antônio Carlos Daros, em 31 maio de 1959, na Igreja Santa Teresinha.

Era prima-irmã do Paulo Leminski. O pai de Lysete era irmão do pai do poeta.

Antes disso, Antônio Carlos Daros já arrasava corações na Casa Humberto, loja de calçados onde trabalhava, na Travessa Oliveira Belo. Lembrando que na confluência da Avenida Luiz Xavier com a Travessa Oliveira Bello fica o Palácio Avenida, local onde há muitos anos, das janelas do histórico prédio, se apresenta um coral de crianças entoando temas natalinos no mês de dezembro. 

Nesses tempos de outrora, a região tinha um grave problema quando chovia forte: transbordava o Rio Ivo, inundando as imediações. Durante décadas, os alagamentos na região central de Curitiba foram um grande desafio para a administração pública.

Voltando ao belo rapaz, sabia-se à boca pequena que mocinhas do Colégio Divina Providência “gazeavam” aula para ir ver o moço, que parecia um galã de Hollywood. 

Antônio sempre só teve olhos para a esposa. Caseiro, sempre de casa para o trabalho e vice-versa. Aos domingos, dirigia-se à loja exclusivamente para alimentar os peixes do aquário. 

Ia passeando, sem pressa. Porém, quando estava em casa e ameaçava cair um temporal, saía desembestado em direção à Casa Humberto.

Vestindo capa de chuva e galochas, corria com água pelas canelas erguendo as caixas dos calçados, tentando salvar o que pudesse. As águas do Rio Ivo se somavam às águas da chuva: alcançavam até meio metro do nível da rua, tanto na Travessa Oliveira Belo como na Praça Zacarias. 

Hoje, o casal descansa no Cemitério Água Verde, no mesmo túmulo que o poeta e outros familiares. 

Por aqui, saudades dos poemas de Leminski e dos afinados assobios do meu pai.


Foto 1: Casamento de Antonio e Lysete 

Foto 2: Enchente na Travessa Oliveira Belo