UMA CASA NAS PEDRAS — CAIOBÁ
Por Karla Weber
Meus avós tinham casa em Matinhos, em uma época que Caiobá “ainda não existia”.
Meu pai costumava fazer trilhas no morro de Matinhos e caminhadas até o local onde hoje é Caiobá. Naquela época, só existiam o morro, a vegetação, pedras e areia. Era possível chegar de barco ou a pé.
Um dos passatempos de quem passava uma temporada no litoral, era fazer piqueniques nas praias próximas ao morro de Caiobá. Eles nunca falaram, mas imagino que a ideia de construir uma casa lá tenha sido um sonho acalentado desde a juventude.
No final da década de 1950, meu pai comprou um “terreno” do Willy, dono de quase todas as terras ao redor do Morro do Boi, em Caiobá. Ele e minha mãe já eram noivos.
De presente de noivado, meu pai deu à minha mãe não uma pedra nem um anel, mas a pedra onde iria se erguer a futura casa de praia deles.
Foi a terceira casa da praia da Ilha do Farol. A primeira foi do Fernando Miranda, no final de uma rua sem saída e com vista livre para o oceano.
A seguir veio a casa dos Köpp, que mantém a arquitetura maravilhosa até hoje, com poucas alterações. Depois veio a dos Requião, com um enorme timão na fachada.
Tempos de uma Caiobá menor, em que as famílias se conheciam e as crianças podiam ficar “soltas” para explorar sozinhas a Ilha do Farol e a praia atrás do Morro do Boi.
Para nós, Caiobá acabava no “castelinho”, uma construção abandonada, na altura onde hoje fica a Casa do Camarão, na praia brava. Era o limite até onde podíamos ir de bicicleta, sem avisar os pais.
O outro limite era a prainha escondida após o final da praia mansa e da sede social do Iate Clube, que terminava em um imenso paredão natural de pedras - uma barreira natural que impedia o acesso pela areia para a outra praia mais distante e já próxima ao ferryboat.
Tudo o que ficava entre essas duas pontas era nosso território. Nossos piqueniques eram feitos atravessando trilhas no mato para se chegar em áreas hoje cortadas pela rodovia que liga Matinhos ao ferryboat, logo depois do restaurante Helena Bandeira, no interior da praia mansa.
Antes que a chamada “rua de trás” virasse rodovia, e ainda na praia mansa, foi construída uma bela alameda: a Rua das Palmeiras, formada por duas ou três quadras de lindas casas brancas, lembrando as casas do Mediterrâneo, emolduradas com o verde das diversas palmeiras.
Voltando à Prainha do Farol, a Casa das Pedras foi construída com muito cuidado, tendo as pedras como a base de terreno e buscando respeitar a natureza ao redor. Apesar da aparência suntuosa, tinha o tamanho normal para um casal com uma filha e que planejava aumentar a família.
Na entrada, uma escada com os degraus vazados — para não impedir a visão do mar — levava à casa, fazendo um “dente” para respeitar e dividir o espaço com uma árvore que já estava lá quando a casa foi construída.
Era uma casa meio estilo Robinson Crusoé, só que em vez de estar em cima das árvores foi construída em cima das pedras. O chão da residência era todo feito de pedras, mantendo um aspecto mais “rústico” na parte externa, e o piso bem lisinho na parte interna da casa.
O terraço dava a volta na construção toda, permitindo que as portas se abrissem para a parte externa e permitindo uma ventilação natural.
A cerca de proteção, envolvendo o terraço, era feita com canos brancos de PVC e redes de pesca, também vazadas e quase transparentes, não impedindo a brisa ou a vista livre para o mar. Além de serem bastante fortes, o que também dava segurança.
A sensação era de que estávamos a bordo de um navio.
Apesar de a casa se integrar à natureza e de ter sido feita com todas as formalidades e alvarás, foi construída em uma época em que isso era permitido. Hoje não seria possível erguer uma casa assim.
E vejo que, apesar da casa incrível, os anos maravilhosos que passamos lá tiveram mais a ver com as pessoas que moravam ali e com um tempo em que Caiobá era nosso paraíso de verão.