UMA PROVA TODA AZUL — BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARANÁ
Foram tempos duros.
Três filhos, meu marido segurando as contas da casa sozinho. Os compromissos com colégios, Unimed, condomínio, fraldas, mercado, gasolina para ir trabalhar e IPTU consumiam o salário inteiro. Não sobrava para absolutamente nada.
Eu não podia trabalhar fora na minha profissão de nutricionista, pois tinha filhos pequenos, então dava aulas particulares — de reforço escolar — em casa. Mas o retorno financeiro era pequeno. Os pais me procuravam somente nas épocas de provas e quando as notas estavam vermelhas. Durante as férias, e em vários outros meses, os alunos escasseavam.
Também fazia massas prontas e empadões para vender. As massas eram deliciosas, mas consumiam muito tempo: molho feito com tomates frescos bem maduros, lasanhas, rondeles de espinafre, ravioli e empadões de camarão, os campeões. Tudo saboroso, com muito capricho, resultando numa trabalheira sem fim. Comprava caixa de tomates no mercado municipal e tirava as cascas e tripas dos quilos de camarões frescos. Não usava nada industrializado; adentrava as madrugadas trabalhando.
Não tinha empregada, e o dinheiro não dava para contratar. Vivia exausta!
Nessa época, minha filha mais velha estudava no Colégio Anjo da Guarda. Era caro, mas eu fazia questão porque considerava uma excelente escola.
A economia necessária para manter as contas em dia era bem radical. Nunca atrasava uma conta, mas, em compensação, tinha zero lazer e supérfluos.
Os passeios com as crianças se resumiam às idas ao Zoológico e parques públicos de Curitiba. Sem sorvetes, bexigas, pipocas.
Até tínhamos terrenos que herdei, mas os imóveis estavam em nome de várias pessoas e não era possível vendê-los.
Diante de tudo isso, a alternativa foi tirar minha filha do colégio e procurar uma escola mais em conta. Antes, fui conversar. Ela era estudiosa: foi uma das três únicas alunas da sala que passou por média no ano anterior.
Achei que seria um bom argumento para pleitear uma bolsa parcial — algo tipo uns trinta ou quarenta por cento, o que já ajudaria muito.
O responsável financeiro, no entanto, ofereceu o desconto padrão que tinha permissão de dar: dez por cento. Fiquei muito decepcionada.
Cheguei a visitar algumas escolas públicas aqui no Centro, mas nem consegui falar com as pessoas responsáveis. As mais bem recomendadas não tinham vagas.
Então soube pela minha cunhada do concurso para entrar no Colégio Militar e que o ensino de lá era excelente. Nunca tinha pensado em colocar a Lucia nessa instituição e nem havia militar na minha família. Era um mundo desconhecido para mim.
Mas, a partir de então, passei a enxergar essa possibilidade como um objetivo de vida. O teste de admissão seria em um mês. Corri e fiz a inscrição. Peguei o conteúdo e mãos à obra.
Daquele dia em diante, nos sentávamos à tarde nas salas da Biblioteca Pública. Retornávamos para jantar e continuávamos estudando até meia-noite ou mais. A Lucia dormia sentada. Geralmente, a partir das 22h, eu precisava cutucá-la o tempo todo para que despertasse e aprendesse mais um pouco.
E dá-lhe estudar! Estudamos tudo o que você não imagina, e ela tinha somente 10-11 anos. O conteúdo de História era absurdo. Eu já era acostumada a fazer crianças irem bem em provas nas aulas de reforço, e muitos chegavam com o conteúdo do bimestre para aprender em duas horas. Mas o conteúdo para o exame da Lucia superava tudo que eu já tinha visto.
Naquele um mês, coloquei em ação todas as minhas energias e estratégias para alcançar sua aprovação no Colégio Militar. Língua Portuguesa era de alto nível: muita interpretação de texto e redação. Não sei quantas redações ela teve que fazer. Abordamos todos os temas possíveis e imagináveis.
E ela ia, aos trancos e barrancos, porque a sobrecarga era enorme. Nem sabia direito porque estava estudando tanto, e/ou nem tinha forças ou coragem de questionar.
Minha atitude era tão intensa que ela só ia.
As provas seriam em duas etapas: primeiro a de matemática, que era eliminatória. Se o aluno não alcançasse a nota mínima, nem passava para a segunda, marcada para a semana seguinte.
Eis que chegou o dia da prova de matemática. Quase nem dormi. Na noite anterior, conferimos várias vezes o material a ser levado para a prova: duas canetas azuis, BIC, novinhas. Lapiseira, borracha, crachá.
Chegamos muito cedo. Eu, o pai e a Lucia. Com o medo do trânsito, imprevistos, lugar para estacionar, acho que exageramos.
Fiquei observando as outras crianças, os outros pais. Confesso que ficava tentando descobrir quais deles teriam mais chances de passar do que minha filha.
Eram 72 candidatos por vaga. Concorrência terrível. E todas as crianças com 10-11 anos. Muitos pais também ficaram aguardando durante as provas, assim como nós. As horas demoraram a passar, e a Lucia saiu por último. Sim, a última a sair da sala. Isso podia ser um mau sinal, mas eu estava tranquila: sabia que ela sempre fazia assim. Repassava cuidadosamente cada questão antes de entregar a prova para ver se algo não fora esquecido, uma pegadinha. Não era afoita e calculava bem o tempo.
Saiu tranquila e me deu o gabarito da prova. Conferi o resultado lá mesmo e vi que tinha acertado 23 das 25 questões. Foi bem. Não acertou todas, mas foi muito bem. Só errou duas. E a prova foi bem difícil, de alto nível.
O resultado sairia na quinta-feira, quatro dias depois. O tempo demorou a passar. Na quinta-feira, acordei cedo e fiquei contando os segundos, me preparando para ver o resultado que seria exposto no lado externo do Colégio Militar. A partir das 11h, sairia a lista dos alunos aprovados na primeira fase e habilitados para a segunda, que traria outras provas: português, história, redação. Eis que meu marido me liga de lá.
— Não venha. A Lucia não passou!
— Como assim?
Não pode ser! Ela nunca ficava nervosa! Nunca teve “branco” nas provas.
— Calma, ela é muito nova! — Meu marido só me acalmava. — Foi muita pressão.
Mas esse blábláblá não me interessava. Eu não ouvia uma palavra do que ele estava falando. Queria ver a prova. Queria ver com meus próprios olhos!
Fui voando para o colégio. Com o coração acelerado, cheguei na porta e não encontrei o nome da Lucia na lista. Minha reação foi imediata!
— Foi um erro! Não está certo!
Entrei dentro do colégio de mãos dadas com minha filha.
Queria falar com o comandante, com o Presidente da República, com o Papa!
Queria falar com alguém que me mostrasse a prova e reparasse aquele erro. Imediatamente.
Tentaram me segurar. Ficaram atônitos. Mas nem um tanque de guerra conseguiria me deter naquele momento. Disseram que os alunos podiam requerer revisão de prova a partir do dia tal, que estava no regulamento do edital e poderia ser feito através de requerimento na secretaria.
Mas eu não podia esperar nem um minuto. Ninguém naquele momento seria capaz de segurar uma mãe ferida de morte e convicta de que estava diante do maior erro e da maior injustiça da vida.
Em dez minutos, estava sentada em frente ao comandante do Colégio Militar do Paraná. Cumprimentei e fui direta:
— Quero ver a prova! Minha filha passou, tenho certeza absoluta.
O comandante foi lá para dentro. Depois de um tempo, chegou com umas folhas de papel na mão e me mostrou.
— A prova está aqui!
Peguei naquela prova de matemática feita de forma muito desleixada. Preenchida de qualquer jeito, com as alternativas marcadas com uns garranchos.
Aquela não poderia ser a prova da Lucia. Minha filha caprichosa jamais faria uma prova daquele jeito. E atrás estava o gabarito preso com um clipe. No gabarito, o nome dela. Aquela prova relaxada mostrava que a Lucia tinha acertado só 3 das 25 questões.
Não recuei nem um instante. Conhecia minha filha melhor que a mim mesmo. Eis que a Lucia, quietinha ao meu lado e que até então não tinha soltado um pio desde que saiu o resultado, serenamente e olhando diretamente para o comandante, falou:
— EU NÃO TROUXE CANETA PRETA. SÓ AZUL.
A prova grampeada e cheia de garranchos com apenas três questões certas foi feita com caneta preta.
Nada mais precisou ser dito. Percebi que até o comandante ficou sensibilizado.
A prova era inquestionável. O gabarito com o nome dela preenchido corretamente com caneta BIC azul foi depois localizado e mostrava as 23 questões certas.
Em menos de 20 minutos, o comandante reparou o erro feito por terceiros e saí da sala dele com a aprovação para a segunda fase.
Erros acontecem, são humanos. Alguns deixam marcas, outros não tem volta. Este, felizmente , foi reversível.
Agradeço do fundo do meu coração o ensino e tratamento recebidos durante todos os anos em que Lucia estudou nessa instituição, o Colégio Militar do Paraná.
Não sei por que ocorreu o erro e tenho certeza que foi uma falha humana. Nada além disso! Soube que foi feita uma sindicância interna severa para evitar possíveis erros nas correções futuras.
A Lucia foi extremamente bem tratada e guarda as melhores lembranças da escola. A instituição Colégio Militar do Paraná tem de mim a mais profunda gratidão pelo que fez pela minha filha e faz por tantas crianças: prepara para a vida! Com amor e disciplina!