VELOCIDADE FEITA À MÃO - PRAÇA 19 DE DEZEMBRO

O DKW 1956 do Vô Dante foi o primeiro importado que chegou a Curitiba, antes da fabricação nacional. O câmbio era ainda não sincronizado: para engatar a primeira marcha, o carro precisava estar parado. Se tentasse forçar, as engrenagens raspavam fazendo um barulho estridente, simplesmente não encaixavam. Já o  DKW do pai, anos 60, tinha o câmbio sincronizado, bem mais fácil de trocar as marchas.  

As corridas de carros nos anos 1950-60 eram disputadas em circuitos nas ruas de Curitiba. Ainda lembro dos circuitos da Praça do Atlético e da Cândido de Abreu. 

Neste último, ficávamos na Praça do Homem Nú ou na Praça 19 de Dezembro:  os carros arrancavam pela Rua Cândido de Abreu em direção ao Centro Cívico. Faziam a curva à direita na Rua Fontana e surgiam ao alcance da nossa visão quando adentravam na Joao Gualberto. Ali  a disputa se tornava frenética. O rugido dos motores ecoava como trovões e um cheiro de óleo e gasolina  se espalhava. O ciclo se repetia até que se completava o número de voltas da competição.

O pai participou de muitas competições em circuito de ruas de Curitiba.   E em circuito de terra em São Jose dos Pinhais. E na Inauguração da Rodovia do Café, com bandeirada em Ponta Grossa do Governador Ney Braga. O irmão Cid foi assistir a passagem e tirar fotos na Serra De Sao Luiz do Puruna. O pai competiu uma prova com o Wilson Fittipaldi e José Carlos Pace, aqui em Curitiba.   Essa só assistimos, quando o Viaduto do Taruma ficou pronto, fizeram uma Corrida para comemorar e veio o piloto Chico Landi.   Ele veio de São Paulo  dirigindo o próprio carro da corrida. Chegou em Curitiba, pintou o numero na lataria correu.   Venceu de ponta a ponta.

O pai teve vários carros: Fusca, do DKW, da Berlineta ou do Karmann-Ghia.  Cada corrida era um novo desafio de engenhosidade. Dependendo da pista e da cilindrada, ele e sua equipe — irmãos, cunhado, amigos — transformavam os carros em armas de competição. Regulagem de carburador, ajuste de platinado, troca de velas, diferencial afiado, bancos removidos para aliviar peso, e até colocar gasolina verde da Base Aérea do Bacacheri.  Em uma prova, colocou um motor de Porsche em um Fusca.

Mas a jogada mais ousada foi quando, ajudado pelo irmão Cid, trocou o câmbio sincronizado do seu DKW pelo sistema bruto do carro do Vô Dante. Por quê? Para arrancar como um tiro — engatar a primeira com violência, manter o motor no limite e ganhar cada centésimo de segundo na largada. O preço? Exigia mãos precisas e sangue frio nas trocas de marcha. E ele tinha os dois.

Da Praça 19 de Dezembro, a vista era de camarote. Dava para ver os carros chegando na curva, freando no último instante, reduzindo na hora exata e explodindo na saída. O ronco dos motores e o grito dos pneus enchiam o ar, enquanto o talento do piloto se media em centímetros e segundos.

Eram outros tempos. Tempos em que corridas de rua eram possíveis — e ninguém questionava. Hoje, seria impensável. Mas quem estava lá, na beira da pista, respirando gasolina e borracha queimada, guardou na memória aquele amor puro pela velocidade. Uma época em que cada carro tinha alma, cada corrida era uma história, e cada vitória... bem, cada vitória ficava para sempre.

 

A Praça 19 de Dezembro, unidade de interesse de preservação, é um marco do centenário da emancipação do Paraná e abriga um conjunto de monumentos com obras de importantes artistas paranaenses, como Erbo Stenzel, Humberto Cozzo e Poty Lazzarotto.